PROEXT: Inovação Social ou Risco para a Essência da Pós-Graduação?

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Prof. Dr. Xisto Souza Júnior

Geógrafo e professor de Geografia da UAG/CH

O PROEXT-PG propõe integrar ensino, pesquisa e extensão na pós-graduação para atender demandas sociais e fortalecer políticas públicas. Mas a iniciativa divide opiniões: enquanto alguns veem nela um avanço para a relevância acadêmica, outros questionam se essa é realmente a missão da pós-graduação.

Por Xisto Souza Júnior

Campina Grande, 23 de dezembro de 2024, O Programa de Extensão da Educação Superior na Pós-Graduação (PROEXT-PG) foi concebido como uma resposta às crescentes demandas por maior integração entre universidade e sociedade. Criado pela Capes, o programa tem como objetivo fortalecer o impacto acadêmico em áreas como cidadania, desenvolvimento sustentável e políticas públicas, por meio da articulação entre ensino, pesquisa e extensão no âmbito da pós-graduação stricto sensu. Desde seu lançamento, o PROEXT-PG tem sido destacado como uma oportunidade para ampliar a relevância social da universidade, mas também levanta questionamentos sobre a possível diluição do papel da pós-graduação, tradicionalmente voltada à pesquisa científica e à formação de especialistas de alto nível.

Embora seja amplamente celebrado como um avanço na relação entre academia e sociedade, ao promover a aplicação prática do conhecimento gerado na pós-graduação, o PROEXT-PG também desperta reflexões sobre a necessidade de preservar sua função primordial: fomentar a pesquisa de ponta e formar profissionais altamente qualificados. Para os defensores, o programa representa uma oportunidade significativa de ampliar o impacto social das universidades, especialmente na formulação de políticas públicas. Por outro lado, críticos alertam que a incorporação de atividades de extensão na pós-graduação pode desviar o foco da pesquisa científica e comprometer a produção de conhecimento avançado, que já enfrenta desafios relevantes no Brasil. Para compreender melhor a complexidade da implementação da proposta do PROEXT-PG, é fundamental avaliar cuidadosamente seus prós e contras.

Prós: Ampliando a Função Social da Universidade

Um dos principais méritos do PROEXT-PG é a proposta de fortalecer o impacto social da pós-graduação, conectando pesquisadores e estudantes às demandas reais da sociedade. Ao priorizar atividades alinhadas com políticas públicas, cidadania e desenvolvimento sustentável, o programa amplia a relevância das universidades na construção de uma sociedade mais justa e democrática.

Outro ponto positivo é a inclusão de regiões historicamente menos favorecidas no Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG). Ao priorizar instituições das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o programa busca reduzir assimetrias regionais e promover maior equidade no desenvolvimento científico e educacional do país.

A interdisciplinaridade promovida pelo programa também é digna de destaque. A integração de diferentes áreas do conhecimento na concepção de ações de extensão pode gerar soluções inovadoras para problemas complexos, promovendo parcerias entre instituições acadêmicas, setor produtivo e organizações sociais.

Além disso, ao incluir estágios de pós-doutorado vinculados à extensão, o PROEXT-PG oferece uma formação acadêmica mais diversificada, incentivando a formação de pesquisadores com visão ampliada e compromisso social.

Contras: A Vocação da Pós-Graduação em Xeque

Apesar dos avanços propostos, o PROEXT-PG também levanta preocupações legítimas. A crítica mais contundente é que a inclusão da extensão na pós-graduação pode desvirtuar o papel central desse nível de ensino: fomentar a pesquisa científica. A pós-graduação stricto sensu tem como objetivo principal formar pesquisadores e produzir conhecimento de ponta. Inserir atividades extensivas nessa dinâmica pode fragmentar os esforços e comprometer a excelência acadêmica.

Outro ponto de tensão é a sobreposição de funções entre graduação e pós-graduação. Tradicionalmente, a extensão tem sido atribuída às atividades da graduação, oferecendo aos estudantes a oportunidade de aplicar conhecimentos teóricos em práticas voltadas à comunidade. Inserir a extensão na pós-graduação pode criar redundâncias e desviar recursos que deveriam ser destinados à pesquisa.

Há também preocupações quanto à gestão e transparência dos recursos. Embora o programa destaque práticas de equidade na distribuição de recursos, sua implementação depende de um aparato burocrático robusto, que pode enfrentar desafios no acompanhamento, fiscalização e prestação de contas.

Por fim, a interdisciplinaridade proposta pelo PROEXT-PG, embora enriquecedora, pode encontrar resistência em programas de pós-graduação tradicionalmente mais fechados em suas áreas específicas. Essa integração requer uma mudança cultural significativa dentro das instituições, o que pode demandar tempo e recursos adicionais.

Considerações Finais

O PROEXT-PG apresenta uma proposta ousada para aproximar a pós-graduação da sociedade, contribuindo para o desenvolvimento de políticas públicas e a redução de desigualdades. Contudo, é crucial equilibrar essa inovação com a preservação da essência da pós-graduação, que é o avanço da pesquisa científica.

A implementação bem-sucedida do programa dependerá de uma gestão eficiente, critérios claros de avaliação e um diálogo constante entre as Pró-Reitorias de Pós-Graduação e Extensão. Para que o PROEXT-PG alcance seu potencial máximo, será necessário respeitar as especificidades de cada nível acadêmico, sem comprometer a qualidade e a identidade de suas funções centrais.

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