Nova Avaliação da Produção Científica: Avanço ou Risco de Retrocesso?

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Prof. Dr. Xisto Souza Júnior

Geógrafo e professor de Geografia da UAG/CH

Mudança no modelo de avaliação da CAPES promete mais precisão na análise científica, mas especialistas questionam: será que o novo sistema conseguirá equilibrar qualidade, inclusão e impacto na pesquisa brasileira?

Por Xisto Souza Júnior*

Campina Grande, 19 de dezembro de 2024: A recente decisão do Conselho Técnico-Científico da Educação Superior (CTC-ES) da CAPES trouxe uma mudança significativa para a avaliação da produção intelectual na pós-graduação brasileira. O foco, a partir do ciclo 2025-2028, será a classificação dos artigos científicos individualmente, deixando de lado o tradicional Qualis Periódicos, que classificava os periódicos como um todo.

A proposta coloca o artigo no centro da avaliação, considerando indicadores bibliométricos e análises qualitativas específicas para cada trabalho. À primeira vista, a mudança promete maior precisão ao valorizar o conteúdo científico produzido. No entanto, será que essa reformulação atende plenamente às demandas da comunidade acadêmica e ao objetivo de promover uma pesquisa científica mais robusta e inclusiva?

Os pontos de interrogação

Embora a ideia de priorizar os artigos em detrimento dos periódicos tenha seus méritos, ela traz desafios complexos. Primeiro, será que a análise individualizada garantirá a imparcialidade necessária? O impacto de um artigo vai muito além de suas citações ou da qualidade percebida de seu conteúdo. Outros fatores, como o prestígio histórico do periódico ou a diversidade de abordagens editoriais, também são relevantes para a valorização da ciência.

Além disso, a diversidade entre as áreas de avaliação levanta preocupações sobre a uniformidade e aplicabilidade dessa nova metodologia. Por exemplo, as áreas de Ciências Humanas e Sociais, que muitas vezes priorizam a originalidade e a pertinência local, podem encontrar dificuldades em competir com áreas que possuem maior visibilidade internacional e métricas bem definidas.

Os três pilares da nova classificação

A nova sistemática apresenta três metodologias para avaliação, mas cada uma delas traz desafios próprios:

  1. Indicadores bibliométricos baseados no periódico: Embora mantenha a métrica atual, recair sobre os artigos individualmente pode penalizar trabalhos inovadores publicados em revistas emergentes.
  2. Indicadores extraídos do artigo: Focar em citações e indexação pode desconsiderar a relevância de artigos que impactam práticas locais ou possuem contribuições mais qualitativas.
  3. Análise qualitativa pelas áreas: Essa abordagem parece promissora, mas dependerá de critérios consistentes e bem definidos, o que exige uma coordenação rigorosa e transparência na aplicação.

Viabilidade ou retrocesso?

A mudança proposta pela CAPES tem o potencial de modernizar o sistema de avaliação, mas traz consigo o risco de ampliar as desigualdades entre as áreas e reduzir a importância de periódicos que servem como veículos de impacto regional e nacional. É necessário um debate mais aprofundado para garantir que o sistema permaneça inclusivo, transparente e adaptado à realidade brasileira.

Enquanto isso, pesquisadores e instituições devem se preparar para os desafios desse novo modelo, ao mesmo tempo em que questionam sua implementação e eficácia em longo prazo. Afinal, no campo da ciência, é essencial que as métricas não ofusquem a essência: a produção de conhecimento que transforma realidades.

* Professor da Unidade Acadêmica de Geografia / UFCG

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