Déjà Vu? Os EUA Podem Repetir o Golpe de 1964?

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Prof. Dr. Xisto Souza Júnior

Geógrafo e professor de Geografia da UAG/CH

Déjà Vu? Os EUA Podem Repetir o Golpe de 1964?O histórico de intervenções dos Estados Unidos na política latino-americana levanta questionamentos sobre a possibilidade de novas articulações golpistas. Diante do atual cenário geopolítico, há razões para temer uma repetição da história?

Xisto Souza Júnior*

O histórico de intervenções dos Estados Unidos na política latino-americana sempre levanta questionamentos sobre sua influência nos rumos dos países da região. Em 1964, o Brasil viveu um dos episódios mais marcantes dessa ingerência externa, com apoio direto do governo norte-americano ao golpe militar que depôs João Goulart e instaurou uma ditadura que durou 21 anos. Mas, diante do atual cenário geopolítico, seria possível que algo semelhante ocorresse novamente?

A Guerra Fria justificava, à época, uma série de ações dos EUA para conter a expansão do comunismo. Esse pretexto foi usado para desestabilizar governos progressistas e garantir que a América Latina permanecesse sob sua influência. Não foi apenas no Brasil que essa estratégia se manifestou. Golpes de Estado foram incentivados ou apoiados em diversos países, como Chile, Argentina e Bolívia, sempre sob a bandeira da “defesa da democracia”, enquanto regimes autoritários eram instalados com forte repressão e violação de direitos humanos.

No século XXI, o contexto global mudou, mas algumas práticas persistem. Os EUA continuam exercendo grande influência sobre a América Latina, utilizando-se de diferentes estratégias para garantir seus interesses, que vão desde sanções econômicas até apoio indireto a determinados grupos políticos. A ascensão de governos progressistas na região e o fortalecimento de blocos independentes, como o BRICS, acendem o alerta sobre possíveis reações por parte de potências estrangeiras.

Além disso, o avanço da extrema direita no mundo reacende preocupações sobre novas formas de desestabilização política. A possível reeleição de Donald Trump nos EUA pode representar um reforço a movimentos autoritários na América Latina, especialmente no Brasil, onde figuras da direita radical já demonstraram alinhamento com o trumpismo. Um dos principais expoentes desse movimento é Eduardo Bolsonaro, que tem estreitado laços com setores ultraconservadores norte-americanos e participado ativamente de eventos ligados a Steve Bannon, estrategista que defende a atuação de forças de direita globalmente.

A articulação internacional da extrema direita pode levar a novos episódios de interferência política nos países latino-americanos, seja por meio da disseminação de desinformação, do apoio a grupos políticos locais ou até de tentativas de desestabilização institucional. O Brasil, que já enfrentou uma tentativa de golpe com os ataques de 8 de janeiro de 2023, segue sendo um país onde esses riscos não podem ser ignorados.

A grande questão que se impõe é: até que ponto os EUA, sob uma possível nova gestão de Trump, estarão dispostos a apoiar movimentos antidemocráticos no Brasil? A história ensina que a vigilância e a mobilização popular são essenciais para evitar retrocessos e garantir que a democracia não seja novamente refém de interesses externos.

Professor de Geografia da Universidade Federal de Campina Grande

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