Reeleição na UFCG: entre a conveniência e o princípio democrático”

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Prof. Dr. Xisto Souza Júnior

Geógrafo e professor de Geografia da UAG/CH

Em meio ao mundo obscuro das redes sociais, emergem tentativas de desestabilização institucional ao levantar, de forma inoportuna, debates que deveriam ser tratados com serenidade e responsabilidade.

Em meio a um cenário nacional de cortes, ataques à autonomia universitária e desafios estruturais, a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) se vê novamente no centro de uma disputa simbólica — e política. Não se trata de orçamento, tampouco de ensino ou pesquisa. O alvo agora é a reeleição para o cargo de reitor.

Nos bastidores das decisões institucionais, a polêmica avança em terreno curioso: o universo paralelo e fragmentado das redes sociais, onde vídeos curtos e frases de efeito tentam ditar os rumos de uma instituição que exige, acima de tudo, planejamento e continuidade.

Propostas pelo fim da reeleição circulam principalmente no Instagram, quase sempre descoladas do contexto real da universidade e embaladas em supostos apelos por “renovação” e “mudança”. São discursos que, embora se digam democráticos, eliminam um princípio fundamental: o direito da comunidade universitária de escolher, com autonomia, entre a continuidade de um projeto ou a sua substituição.

A UFCG, como qualquer instituição pública, precisa ser regida por critérios de mérito, competência e avaliação coletiva — e não por regras que tentam impedir previamente a possibilidade de recondução. Reeleição não é imposição: é uma possibilidade garantida pela legislação, que oferece ao eleitor universitário a liberdade de julgar, nas urnas, o desempenho de uma gestão.

Ao longo de sua história, a UFCG já vivenciou experiências de reeleição que resultaram em estabilidade, crescimento institucional e fortalecimento das suas políticas de ensino, pesquisa e extensão. Em contextos em que o gestor demonstrou liderança, compromisso e resultados concretos, foi a própria comunidade que optou por sua permanência. Negar essa possibilidade seria, na prática, limitar o poder de decisão daqueles que vivem e constroem diariamente a universidade.

Curiosamente, os maiores opositores da reeleição são, quase sempre, vozes que não conseguiram traduzir seu discurso em práticas sólidas ou apoio coletivo. Recorrem, então, à tentativa de reformar as regras do jogo — não para fortalecer a democracia, mas para garantir artificialmente espaço político em disputas onde o voto livre não os favorece.

Enquanto isso, a universidade segue enfrentando questões urgentes: pressão por resultados, ataques ideológicos, subfinanciamento e a crescente demanda por inclusão e inovação. Nesse contexto, barrar previamente a continuidade de uma gestão bem avaliada pode significar a desarticulação de projetos estratégicos, paralisação de investimentos e retrocesso em conquistas que levaram anos para se consolidar.

O fim da reeleição não resolverá os desafios da UFCG. Pelo contrário: tende a agravá-los, ao submeter a instituição a ciclos curtos, gestões inacabadas e à tentação constante do populismo de ocasião. É um erro acreditar que impedir um gestor de continuar seu trabalho é sinônimo de avanço. Renovar, sim. Mas com liberdade de escolha, com avaliação criteriosa e com respeito à vontade da comunidade.

No debate sobre a reeleição, o que está em jogo não é um nome. É o próprio direito de escolher. E, quando esse direito começa a ser atacado sob o pretexto de moralidade, convém lembrar: as democracias não morrem de uma vez — elas são enfraquecidas, pouco a pouco, pelos atalhos que parecem inofensivos.

A democracia universitária não se sustenta em atalhos institucionais nem em pressões do momento. Ela se constrói com debate qualificado, respeito às normas e, sobretudo, com a garantia de que nenhuma decisão sirva como disfarce para silenciar gestões ou restringir direitos.

A UFCG merece um debate à altura da sua história — e não mais um ruído entre filtros e curtidas no mundo instável das redes.

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