UFCG: 23 Anos de Luta – Uma Análise pelas Gestões Reitorais

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Prof. Dr. Xisto Souza Júnior

Geógrafo e professor de Geografia da UAG/CH

Ao longo de 23 anos, a UFCG se firmou como símbolo da interiorização do ensino superior e da resistência universitária no Nordeste. Criada em 2002, enfrentou ciclos de expansão, crise e reconstrução.

Por Xisto Souza Júnior*

Campina Grande, 09 de abril de 2025, Ao longo de quase um quarto de século, a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) tem sido palco de disputas, avanços e resistências que refletem não apenas sua identidade institucional, mas também os dilemas da educação pública brasileira. Criada em 2002 por meio da Lei nº 10.419, a UFCG nasceu do processo de desmembramento da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), consolidando um novo projeto de interiorização do ensino superior no Nordeste, com sede administrativa e protagonismo acadêmico no interior paraibano (BRASIL, 2002).

Mais do que um marco jurídico, sua criação representou um avanço estratégico na democratização do acesso à educação superior em regiões historicamente negligenciadas. Desde então, cada gestão reitoral assumiu o desafio de consolidar a UFCG como instituição autônoma, plural, crítica e comprometida com o desenvolvimento regional sustentável. Diversos estudos destacam o papel das universidades federais do interior na promoção de políticas de inclusão social e na valorização da pesquisa aplicada às realidades locais (CUNHA, 2007; MOURA, 2018).

Recontar a história da UFCG por meio de suas reitorias é compreender como a luta por autonomia, permanência estudantil, inclusão, financiamento e democracia interna moldou a instituição — especialmente em contextos adversos como os vividos nos últimos anos, quando a autonomia universitária foi colocada à prova por intervenções políticas e orçamentárias. Nesse percurso, a UFCG resiste como um espaço de formação crítica e esperança coletiva, reafirmando seu papel como instrumento de transformação no Nordeste brasileiro.

Mais do que datas, sua história é marcada por batalhas institucionais, crescimento acadêmico e enfrentamento de crises políticas. A seguir, um olhar sobre as gestões que moldaram a universidade:

Thompson Mariz (2002–2012): O arquiteto da autonomia

Visionário, corajoso e determinado. Foi assim que Thompson Mariz entrou para a história como o primeiro reitor da UFCG, liderando o audacioso processo de emancipação da então unidade da UFPB. Mais que gestor, foi um arquiteto de sonhos — moldando as fundações de uma universidade nascida para ser protagonista.

Sob sua liderança, a UFCG ganhou forma, alma e identidade. Sete campi se ergueram como faróis do conhecimento no interior nordestino. Cursos de graduação e pós-graduação foram criados com a ousadia de quem acreditava na força da ciência e da educação como instrumentos de transformação.

Thompson não construiu apenas prédios. Construiu autonomia, pertencimento, orgulho. Sua gestão projetou a UFCG no cenário nacional, com destaque em áreas como engenharia elétrica, ciências agrárias e ciência da computação — consolidando um legado que ainda ecoa em cada sala de aula, em cada laboratório, em cada conquista acadêmica.

José Edilson de Amorim (2013–2016): A gestão da travessia

Em tempos de incerteza, líderes sensíveis fazem toda a diferença. Edilson Amorim assumiu a reitoria em meio à recessão econômica e ao aumento das tensões sociais. Mesmo diante das adversidades, ele manteve firme o leme da inclusão.

Sua gestão foi marcada pela defesa incondicional da permanência estudantil. Bolsas foram ampliadas, políticas de apoio reforçadas, e as ações afirmativas ganhavam novo fôlego. Ele fez da UFCG um abrigo para os que mais precisavam e um espaço mais justo para todos.

Apesar da escassez de recursos e das limitações estruturais, nunca abandonou o diálogo, nem cedeu à pressão. Edilson guiou a universidade com equilíbrio, tentando preservar o que era mais precioso: a autonomia, a diversidade e o compromisso com a transformação social.

Vicemário Simões (2016–2020): A travessia entre sombras e resistência

Assumir em meio ao caos é para poucos. E Vicemário Simões se viu à frente da UFCG durante um dos períodos mais turbulentos da política nacional. A estabilidade institucional era o objetivo, mas a tempestade não deu trégua.

Sua gestão buscou manter a normalidade administrativa, mas foi marcada por críticas à falta de diálogo e à dificuldade de enfrentar os cortes que estrangularam a educação pública. Protestos, embates internos e incertezas marcaram o período.

Ainda assim, houve esforços genuínos para manter viva a chama da pesquisa e da extensão. Mesmo com os ventos contrários, projetos acadêmicos seguiram em frente. Foi um tempo de resistência, onde a democracia interna e a autonomia universitária foram colocadas à prova — e onde cada pequena conquista foi, na verdade, um ato de coragem coletiva.

Gestão interventora (2020–2024): O tempo da escuridão

Poucas vezes na história da UFCG a palavra “intervenção” pesou tanto. Pela primeira vez a reitoria fica vazia uma vez que o reitor nomeado não foi referendado pela comunidade.

Durante esses quatro anos, a universidade foi silenciada. Reitores não eleitos pela comunidade foram impostos pelo governo federal, ferindo o pacto democrático que sustenta o espírito universitário. O resultado? Uma instituição paralisada, desmobilizada, desconectada de sua própria essência.

Projetos foram desmontados. Conselhos ignorados. Cortes de verbas, tentativas de cerceamento ideológico e o enfraquecimento da autonomia geraram um sentimento generalizado de desalento. A UFCG, que sempre pulsou como centro de pensamento crítico e liberdade, parecia ter perdido sua voz.

Mas nem nas noites mais escuras a esperança se apaga.

Camilo Farias (2025 -) (2024–atual): Reconstruir, reacender, reerguer

Com a retomada da democracia interna, uma nova era começou.

A eleição de uma nova reitoria legitimamente escolhida pela comunidade acadêmica acendeu a centelha da esperança. Agora, o desafio é gigante — reconstruir uma universidade que foi ferida, mas não vencida.

Há muito a fazer: recuperar estruturas, valorizar docentes e técnicos, fortalecer a ciência, a inovação, e, sobretudo, reconectar a UFCG com o povo nordestino e com o Brasil.

Mais do que reconstrução, o momento exige renascimento. Em um país que busca curar as feridas da polarização e do negacionismo, a UFCG quer voltar a ser espaço de diálogo, de cultura, de liberdade e de futuro.

Porque cada universidade é muito mais do que um campus. É um território de sonhos. E agora, a UFCG volta a sonhar — com os pés firmes no chão da realidade e os olhos voltados para o amanhã.

Fonte:

BRASIL. Lei nº 10.419, de 9 de abril de 2002. Cria a Universidade Federal de Campina Grande. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2002.

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